A solução é você voltar e nós dois juntos nos amarmos. Então eu acho que não tem ninguém que te ame assim
Passou pela entrada, passou pelos outros
que estavam na sala de espera (entre eles, havia uma mãe brigando com uma filha
adolescente, ou pelo menos parecia), chegou perto do balcão onde a atendente estava
lixando as unhas:
– Boa tarde
– Boa tarde, tenho uma consulta marcada com
um psicólogo, o Dr. João
– Ta certo, deixe-me verificar aqui. Você é
a Dona... ?
– Céu. Céu Aberto. A alma dela.
– Certinho, está aqui. Seu corpo está com
você ou você está sozinha?
– Sozinha.
– Certo, sente ali e espere ser chamada, ok?
– Tudo bem. Você tem água por aqui?
– Bem ali, direto nesse corredor, terceira
porta pra direita.
– Ah, beleza.
Andou pelo corredor preto (parecia que tudo
ali era assim, chegava a doer na vista algumas horas) buscando o bebedouro,
assim que parou em frente a uma porta vermelha. Uma olhada pela porta e viu os
médicos e enfermeiros correndo, indo de um lado para o outro, de doente em doente.
Por ali, podia ver um que parecia ter sido esfolado vivo. Viu outra coisa que a
deixou profundamente perturbada: os médicos tentando arrancar à força um senhor
que chorava muito em cima do que parecia ser uma cópia exata deitada sem
consciência na cama. Andrea segurou um grito com as mãos ao se dar conta que
jogado na cama estava apenas uma parte dele, como se a parte de baixo tivesse
sido arrancado de forma brutal ou partida ao meio.
Aquilo a assustou e então ela continuou seu
caminho, achou sua água, voltou para a sala de espera. Sentou apressada com o
copo vazio ainda nas mãos. Tinha uma mania de ficar brincando com o copo nas
mãos por horas mesmo quando já tinha bebido tudo, pra ficar mordendo a borda ou
apenas pra ter o que segurar nas mãos mesmo. Deu uma olhada ao redor e viu
vários pacientes que, assim como ela esperavam, alguns sendo acompanhados de
seus corpos e outros não. Pelo menos umas seis almas estavam ali, mas apenas três
tinham seus corpos ao lado. Uma delas era uma menina nua; outra, uma mulher com
curativos que cobriam toda sua perna, pescoço e até rosto. Também havia a mãe e
a filha, que a essa altura ela já tinha entendido que eram apenas uma mulher e
sua alma adolescente, elas já haviam parado de brigar há um tempo e continuavam
apenas sentadas uma ao lado da outra, sem se falar enchendo a sala com aquele
clima que só quando duas pessoas que se gostam estão brigadas conseguem.
Havia uma coisa que a deixou curiosa
também, um corpo de uma mulher que acompanhava a alma de uma mulher.
A última alma que estava acompanhada tinha o
ar de um advogado que acabou de sair do escritório. Bem vestido, barba feita,
lia uma das inúmeras revistas espalhadas sobre a mesinha, aparentava não mais
do que 30 anos. Lhe fazendo companhia estava uma figura corcunda e concentrada
em uma xícara de café que seria idêntica a ele, não fosse pela barba por fazer
e o olhar cansado, com olheiras de quem não dorme há dias, e o fato de ser
notadamente bem mais velho. Tinha a aparência tão diferente que poderia ser
facilmente confundido com seu pai ou seu avô. Isso a fez se perguntar se também
parecia mais velha do que realmente era, e isso ocupou seus pensamentos por um
tempo até seu nome ser chamado pela atendente
– A senhora pode entrar, o Dr. João está
aguardando você naquela sala
– Obrigada.
– Boa tarde.
– Boa tarde Doutor.
– Você pode sentar-se ali... senhora Céu,
certo?
– Isso. Mas senhorita, por favor.
– Certo. Antes, onde está seu corpo?
– Em casa, deitada. Ela não sai muito de
casa, então tive que vir somente eu. Ela anda um pouco doente esses dias, e eu
acho que é por minha causa.
– Entendi. Já tive alguns casos assim. Mas
você veio fazer o que é melhor pras duas, é o que importa no momento. Tem
alguma coisa, em especial, que você gostaria de falar?
– Sim. Eu tenho sentido dor.
– Onde você sente essa dor?
– Não tem uma mínima parte de mim que não
doa. E isso, cada vez mais, está refletindo no meu corpo, mas acho que ela
ainda não sabe disso. Ela está sempre cansada ou cabisbaixa, não importa
quantas horas por dia durma ou descanse, e acho que isso vem de mim, e não de
uma necessidade física dela. Vem de mim. Então ela começou a tomar
essas... pílulas que o médico receitou pra ela dormir, mas as coisas parece que
só pioraram. Não é uma questão de sono.
– Então você sabe do que se trata. É uma
questão de que, então?
– Acho que é um problema com de existir.
Talvez enquanto eu existir isso não vai passar.
– Faz muito tempo que você se sente desse
jeito?
– Não Doutor, alguns meses.
– E o que aconteceu?
– Amei. Mas acho que amei excessivamente.
Entrei de cabeça, dei tudo de mim. E quando ele me deixou, deve ter levado
alguma parte de mim
Ela sentiu como sempre se sentia quando falava
dele, como se houvesse um vazio na barriga. Um aperto no peito no mesmo
momento, como se faltasse uma parte. E era exatamente isso.
O doutor não se alarmou. Já havia
presenciado casos muito piores.
– Com o que você tenta preencher esse vazio
que você sente?
– Músicas e filmes. Também venho escrevendo
bastante. E leio. Leio muito.
– O que você lê?
– Ah, basicamente alguns autores que
conseguem pôr em palavras tudo o que eu sinto. Às vezes é bom saber que alguém
se sente igual você, deve ser coisa da empatia. Também comecei a fumar mais
desde então. Uma carteira de cigarro por dia, algumas vezes até duas. Tem dia
que, realmente, é foda.
– São muitos cigarros, você não se preocupa
com sua saúde?
– Não consigo mais me preocupar comigo
mesma. Não consigo mais me preocupar com quase nada nada. Acho que quem aguenta
uma dor de coração, aguenta qualquer coisa Doutor.
– Certo. E tudo isso... o cigarro, as
músicas, os livros, eles ajudam a preencher esse seu vazio?
– Não. Na verdade, as vezes eu penso que
eles só pioram. É como aquela ferida que quanto mais você mexe, mais dói. E
apesar de saber disso eu não consigo parar de cutucar. Não consigo.
– E essas marcas no seu braço?
– São cortes que sempre aparecem toda vez
que eu falo dele, ou vejo as nossas fotos, ou ouço uma música que me lembre
quando estávamos juntos.
– Se você parasse de fazer essas coisas.
Você acha que essas coisas não apareceriam?
– Não sei, acho que sim.
– Certo. Apenas no braço ou essas marcas
parecem em outro lugar não tão visível?
– Não, nunca.
– Acontece com seu corpo também?
– Não...
– Quantos anos você tem?
– 25.
– E fisicamente?
– 20.
– Srta. Céu, vou lhe fazer uma pergunta
agora, e, por favor, você tem que ser o mais sincera possível. Mas não comigo.
Na verdade, não precisa nem me responder, mas você tem que ser sincera com você
mesma. Srta. Céu, você quer melhorar?
– Eu não sei...
– Eu não sei...
– Não precisa responder. Nossa consulta já
está no fim, mas você vai voltar semana que vem, certo?
– Sim.
– Então pense durante esses dias e semana
que vem você volte... Não precisa vir com uma resposta. Imagino que temos
várias consultas pela frente. Você pode dar sua resposta quando se sentir
pronta. Tudo bem?
– Tudo sim. Obrigada, Doutor.
– De nada. Melhoras, sim?
– Vou tentar, Doutor... Juro que vou
tentar.
Quando saiu, a atendente falou o nome da
próxima paciente. A mulher e sua alma adolescente entraram no consultório para
serem atendidas de mãos dadas como se fossem mãe e filha.
Céu saiu da clínica, e foi andando nas
ruas. Pegou um cigarro enquanto esperava o ônibus de volta pra casa. Já tinha
uma certeza na cabeça. Amanhã iria procurar outro psicólogo. Talvez já fosse o
terceiro ou quarto, só este mês. Talvez já fosse até o quinto, não importava.
Ela só queria falar... e alguém que a escutasse. Ela sofria, sabia disso, mas
tivera várias chances de melhorar nesse tempo que havia sofrido, se realmente
quisesse melhorar. Mas sofria porque o amava, e achava nisso uma forma de
lembrar dele. A verdade é que sofria porque achava bonito sofrer.
E só.